quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mês de julho. Às 19h15min ele estaciona o carro, acena para os pais e diz: “Não se preocupem, cuidarei dela.” Ela sorri, beija seus pais e antes que o pai pergunte, ela avisa: “Voltarei entre meia-noite e uma hora da manhã.” Desce as escadas correndo. Faz um carinho rápido no cachorro e vai ao encontro dele. Entra no carro, dá um beijo cheio de saudades e pergunta: “Tudo bem, amor?” Ele: “Sim, e você como está, linda?” Ela: “Estou ótima. Você sabe mesmo como chegar ao barzinho, né?” Ele: “Eu vi o endereço antes de vir. É fácil chegar!” Então, ele liga o rádio e conversa sobre a confiança que o pai dela depositara nele depois de certo tempo. Conversam sobre o dia de ambos .. “Não acho a rua que devo entrar!” Ela olha para trás e diz: “Não era aquela que acabamos de passar?” Ele fica em silêncio e dirige atencioso aos nomes das ruas. O único som que se ouve é o do rádio. Incomodada por estar “perdida” ela avisa: “Vou ligar para o meu pai. Ele me diz como chegar lá.” Impaciente ele tira o celular da mão dela e apenas diz: “Não precisa, eu me acho!” Ela então pega o celular novamente e sem dar satisfações disca para seu pai, pede as informações a ele e desliga. Num tom de voz seco o conduz até a rua que procura. Ao chegar, ela comenta com ironia: “É, te trouxe até aqui..” Mesmo sem esperar que ela termine a frase, ele fala revoltosamente: “Se está tão incomodada, desça do carro e vá sozinha!” O único som que se ouve é o do rádio. A garganta arranha de tanta vontade de chorar, os olhos enchem-se de água e uma piscada que desse, lágrimas simbolizando a mágoa que sentira por ele escorreriam pelo seu rosto. Resiste. Fixa o olhar na janela do carro e tenta não pensar no que acabara de acontecer. Ele fica em silêncio. O único som que se ouve é o do rádio, que nesse instante toca: ♪ “quero poder jurar que essa paixão jamais será..” Ele desliga o rádio. Não há mais som algum. Sete minutos até chegar ao bar. Eternos sete minutos aqueles em que passamos dentro do carro. Eu estava tomado pelo orgulho e não fui capaz de reparar o quanto ela estava magoada por causa das minhas palavras. Faltaram-me palavras naquele instante de raiva. Depois dos sete minutos de total silêncio, chegamos enfim. Saímos do carro e caminhamos até a porta do bar. No bar para não transparecer nossa briga, fingimos estar “bem”. Mas, eu sabia o quanto estava magoada. Ela não olhava em meus olhos, evitou me tocar e quando eu disse para conversarmos, ela se recusou. Optou por continuar fingindo estar bem e por jogar conversa fora com as amigas. E eu? Recusei-me a insistir pelas palavras, pela conversa que precisávamos ter, pelo pedido de desculpas. Preferi me calar com copos e mais copos de cerveja. Idiota! Ahhh como eu me arrependo por cada gota de álcool que coloquei na boca! As horas passaram e estava na hora de levá-la embora. Nos despedimos dos amigos, pagamos a conta e saímos em silêncio. Sabíamos o quanto estávamos incomodados com a situação, pois éramos cúmplices, compartilhávamos cada momento, não conseguíamos ficar uma noite se quer sem nos falar no telefone antes de dormir, amávamos rir juntos, estar juntos, ser felizes juntos, e naquele momento nos encontrávamos em total silêncio, nem uma palavra, nem um olhar e nem um sorriso. Estávamos dentro do carro, e eu seguia em direção a casa dela. Parei no semáforo. O silêncio então foi quebrado com o barulho de um motor, o maldito barulho de um motor de carro que tinha emparelhado ao meu lado; Os babacas que estavam no carro começaram a me desafiar. Ela falou num tom normal de voz “ignore as palavras deles, ignore”. Mas, totalmente alcoolizado que eu estava, me deixei levar pela provocação, e ignorei as palavras dela. VERDE! Arranquei, e a medida em que o tom da voz dela crescia “por favor, pare de acelerar, pare!” a distância entre os carros diminuía. 100km/h, 120km/h, 140km/h.. uma batida na lateral, um giro, um grito, um poste. Acordei no hospital, depois de algumas horas em que estive dormindo. Encostada na minha cama, estava a mãe dela a me observar. Passaram tantas coisas na minha cabeça para falar naquele momento, o mais coerente seria um pedido de desculpas, pois eu não cumpri com as minhas palavras: “Não se preocupem, cuidarei dela.” Mas, não pude me conter... “E ela?” perguntei, ansioso pela resposta. A mãe dela então se aproximou de mim e deixou em minha mão um papel dobrado, com as palavras ditas pela filha, poucas horas antes. Abri o bilhete com lágrimas nos olhos e tremor na mão “QUE O NOSSO AMOR PRA SEMPRE VIVA, MINHA DÁDIVA!” Um grito de desespero saiu de dentro de mim, as lágrimas molhavam o meu rosto. Coloquei o bilhete sobre o meu peito e o apertei como se eu pudesse sentir o abraço carinhoso dela novamente! Ela se foi, e eu não pude pedir desculpas pelas palavras tolas que eu disse no carro, não pude falar o quanto ela estava linda com aquela roupa, não pude dizer te amo olhando naqueles olhos encantadores, não pude jurar que a nossa paixão jamais seria apenas palavras, não pude dizer que ela era a minha maior dádiva. E agora, já não posso mais dizer nenhuma palavra.”


Mary Portilla

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